14 de Maio de 2009
16 de Abril de 2008
Cristalino
Os céus se fecham em reverência.
Flui o tempo em movimento,
refletindo seus intervalos em vidro.
Voa com asas desplumadas,
Eclipsa o sol com sua face,
Transmuta os pés em nuvens
E seu corpo se torna volátil.
Do alto, a voz rouca retunda,
Ondula o vento tempestuoso,
Visualiza aquela na Terra e profetiza:
"Tu Governarás!"
23 de Novembro de 2007
Vou pedir à Kali a tranformação, quem sabe ela não faz a vida despertar?
31 de Outubro de 2007
Série Salem

Canção de Ninar
(Por Silvia Randazzo)
Marilyn estava deitada sobre a divisória velha e abandonada, no depósito do ferro-velho da cidade. Observava a lua minguante, de luz opaca e ligeira, que insistia em se mostrar por entre as nuvens que sapateavam com o vento. Pegou seu maço, retirou um cigarro e o acendeu. A noite estava fria, era inverno; ela, no entanto, usava apenas uma camisola de seda azul-marinho, deixando o corte da gelada brisa tocar sua pele. Passou a mão na franja loura, puxando-a para trás, enquanto cantarolava:
“No chão do quarto, esperanças jogadas,
As mentiras, tantas, espalhadas,
As cartas de amor foram todas rasgadas,
As lágrimas que caem, desconsoladas...”
Continuou a canção apenas com a melodia, balbuciando, hora ou outra, uma palavra solta no meio dos tananás. Olhou para as próprias mãos. A unha, por fazer, ainda guardava partes marrons; os anéis prateados, vários, dispostos pelos dedos. Um dos anéis começava na base do indicador, e terminava quando o dedo já havia se completado, formando uma garra. Começou a brincar com os dedos como se dedilhasse um teclado imaginário.
Fechou os olhos e deixou sua vida passar por sua cabeça. Nascera em 1816? Ou foi um pouco depois? Não se lembrava mais, sequer sabia sua idade. Filha de burgueses, família que havia se enriquecido através do comércio com a Índia e seus tecidos baratos de alta qualidade. Sua mãe era próxima somente quando ela era uma pequenina criança, e costumava vesti-la como a uma boneca de porcelana, adornando-a com peças caras e anelando sua lisa cabeleira. Desde muito jovem, Marilyn estudou piano, criando um certo apego às sonatas de Chopin, seu compositor predileto. Na adolescência adorava ir a recitais, convidar as amigas para o chá das cinco e conversar sobre as últimas fofocas da família real. Estava sempre junto de sua ama, Rose, que mais parecia sua mãe do que a própria, devido à amizade de ambas. Passava dias inteiros no parque a arriscar pinceladas em telas, reproduzindo as imagens que via, acrescentando um toque de sua imaginação pessoal, a todo momento. Geralmente, nos fins de semana, ia ao clube das senhoras, aprender a cozer, costurar, organizar e administrar a casa, como toda senhora de casa que se preze. Lá também jogava críquete, com suas companheiras associadas. Estudava o francês e o latim, dominava as línguas, e as falava e escrevia como se morasse na França, ou tivesse vivido na Roma antiga. Adorava leitura. Devorava romances inteiros e acompanhava as novelas que os jornais postavam semanalmente.
Outro passatempo que a agradava era jogar xadrez com seu pai as segundas à noite. Marilyn dava-se fantasticamente bem com o pai. Esse sempre deu muito valor à filha, matriculando-a nos melhores colégios da região de Londres, e tratando-a como a um igual. Ele era um homem moderno e discordava da maneira com a qual a sociedade enxergava as mulheres. Quando a jovem completou dezoito anos, seu pai decidiu que já era hora de levá-la aos bailes da alta sociedade para que ela fosse apresentada aos homens e, dentre os pretendentes, escolhesse o marido. Ela era aversa à idéia de se casar, mas achou interessante ir a bailes e, assim, expandir seu círculo de convivência.
O primeiro baile foi na casa dos burgueses Becckett. Marilyn dançou, tocou piano, cantou, recitou poemas, conquistou alguns pretendentes, fez novas amizades, dançou mais um pouco e chegou a casa exausta. O segundo e o terceiro foram iguais aos primeiros. Ela fez exatamente a mesma coisa. Nos próximos, nada mudou. Depois de alguns meses a novidade deixou de surpreendê-la, e ir a esses eventos se tornou mera obrigação para realizar os desejos do pai de casá-la. Todas as formalidades que existem numa festa estavam a entediando profundamente. E então, ela amuou. Procurava dar desculpas para fugir dos bailes. Sentia dores, inventava febres e mal-estares, mas nem sempre conseguia fugir das festas. E então veio um grandioso evento: no salão oficial da nobreza se realizaria o reveillon, como era feito todo ano. Marilyn se animou, pois seria a primeira vez que ela iria numa comemoração de tal porte, onde encontraria a rainha. Encomendou novo vestido à costureira, em tom prata; escolheu novas jóias e acessórios; contratou um dos melhores cabeleireiros da localidade para atendê-la no dia da festividade. Acordou eufórica, mandou telegramas para as amigas, que responderam no mesmo dia, combinaram de se encontrar logo que chegassem ao baile e quase não comeu o dia inteiro, tamanha a ansiedade para que a tão esperada hora chegasse.
Às dez horas em ponto, Marilyn estava na porta do grande salão, onde entrou em grande estilo, sendo anunciada como a Senhorita Bellford, herdeira legítima da Bellford Comércios. Suas amigas chegaram logo depois, e elas se cumprimentaram como se não se vissem há décadas. Umas elogiavam às outras com seus vestidos novos e os cabelos feitos com muito zelo. Estavam exaltadas com a festa de ano novo, que prometia o inicio de novos planos para serem concretizados na nova data que correria. A rainha foi anunciada, e deu-se início à dança. E foi justamente naquele momento que ela conheceu Sean, um desconhecido que entrou ao baile como pertencente da família Steves, fazendeiros de renome dentro do país. Ele entrou com sua roupa de gala preta, uma flor branca enfeitando o terno, o cabelo castanho comprido amarrado atrás da nuca, os passos leves como os de uma garça. Sean a tirou para dançar e ela aceitou, intrigada com rapaz de olhos interrogativos. Ele tinha uma aura de mistério que a deixava curiosa, e ela sentia-se hipnotizada pelo seu gesticular sereno.
Dançaram durante muito tempo, e conversaram. Marilyn estava muito concentrada em descobrir mais sobre seu companheiro, e percebia-se tímida por estar se apaixonando. No entanto, era aquilo que havia ocorrido. Ela se apaixonara ao colocar os olhos naquela criatura encantadora, e agora arriscava dizer que estava amando. Justo ela, que não acreditava em nada à primeira vista, cética que era com as paixões repentinas, virara refém de sua própria descrença, deixando o coração inundar de vontade de ficar ali, assim, com aquele homem, por todo o tempo possível.Conheceram-se melhor, riram juntos e, de tão entretidos que estavam, somente aperceberam-se do tempo decorrido quando começou-se a contagem para a virada do ano. Foi quando ele soltou, ao pé do ouvido de Marilyn um “eu a amo” carinhoso e sincero, pegando em sua mão. A moça corou, ficou envergonhada, mas retribuiu o carinho e a frase, respondendo “eu também”. Sean abraçou-a e completou: “Eu a observo há muito, muito tempo. Desejo que sejas minha por toda a eternidade.” Aquelas palavras foram exatamente o que a jovem queria ouvir, “por toda a eternidade”, e a idéia de pertencer àquele misterioso sedutor fazia seu coração sair à boca, e um frio em seu estômago instalou-se. Sean começou a guiar Marilyn para fora do salão. Ela não protestou, apenas o seguiu, e seus sentidos estavam dançando a valsa da paixão, pois ela havia conhecido alguém que mexesse com ela, que a intrigasse, uma pessoa que a fizesse ter vontade de mais e mais. Queria fugir dali com ele, e tinha certeza de que era isso que ocorreria. Entretanto, em primeiro momento, ele a levou para o jardim real, escondendo-se atrás das árvores de um pequeno bosque, buscando privacidade. E, entre os raios de luar, ele mostrou suas garras. Grandes caninos brilhavam, saltavam de sua boca, caninos que procuravam o saciar dos almejos da carne. Cravou os dentes na moça, que soltou um curto gemido, cortando, logo depois, sua língua com os dentes, ordenando a Marilyn: “Beije-me!”
E assim ela se tornara diferente, fugiu de casa. Virou um ser da noite, que vagava na escuridão à procura de indivíduos sozinhos para se satisfazer na luxúria de sangue. As frutas de verão já não lhe apeteciam mais. O cheiro dos legumes cozidos já não abria seu apetite. Mas ouvir o palpitar de um coração, ou captar o odor de suor a deixavam faminta. Seus sentidos, agora aguçados, permitiam que ela percebesse cada pulsar da vida, cada florescer da primavera, cada casca de ovo quebrada - anunciando um novo bebê. E cada vez mais ela se inebriava com as novas descobertas, sempre sorvendo o líquido violeta que corria nas veias dos seres.
Amava Sean como nunca amou a ninguém, e precisava dele para continuar desfrutando os sabores da existência sombria, privados da luz do sol. Eles formavam um casal perfeito, de tão sincronizados que eram. Juntos, destruíram famílias inteiras. Usavam da influência que suas famílias tinham no país para se aproximarem das pessoas, faziam amizades e ganhavam a confiança deles, para, depois de infiltrados no seio familiar, se alimentarem abundantemente. Ou caçavam nos subúrbios das cidades pelas quais passavam, se aproveitando de bêbados, prostitutas e transeuntes, pessoas de quem ninguém sentiria falta. Iam a operas, peças de teatro e bailes da alta sociedade somente para escolherem as vítimas que os agradavam mais. Gostavam de sangue burguês e de sangue nobre. Divertiam-se optando por quem atacariam em seguida, usando como critérios idade, vaidade, arrogância, status e beleza. Riam das notícias de jornal, que comentavam horrorizadas das matanças que estavam ocorrendo em todo o país, acusando uma praga desconhecida, que deixavam seus doentes secos, sem resquícios de sangue no corpo. Viviam harmoniosamente com sua condição de predador e eram felizes, um com o outro, e ambos amaldiçoados.
Um dia, no entanto, Sean dirigiu o olhar para a moça, cético e mudado. “Pode fazer o que desejar de sua vida, Marilyn, eu vou embora, não te amo mais.” Foi o que ele disse. Deu as costas à garota e desapareceu entre as sombras da noite. O mundo dela ruiu. Entrou num frenesi sem fim, se alimentando escassamente, durante décadas. Matava mais do que era necessário para se alimentar durante a noite e fazia isso para descontar sua raiva de ter sido abandonada, de uma hora para outra, sem explicação, por alguém que lhe presenteara com a liberdade e a eternidade, e, depois, partira sem ao menos se despedir apropriadamente. Ela não entendia o que acontecera com ela, que era tão feliz e realizada, e, de repente, caiu no desgosto dos sonhos rompidos.
Marilyn apagou o cigarro. Voltou de suas lembranças ao ouvir o grande relógio dando suas baladas de cinco e meia da manhã. Levantou-se e acarinhou o rosto de Sean, acorrentado, ao seu lado.
- Não adianta tentar escapar, meu amor. Eu fiz correntes tão fortes que nenhum vampiro poderá quebrá-las.
- Marilyn, por que faz isso? O que você quer de mim?
- O que eu quero de você? Quero apenas ficar ao seu lado, para sempre...
- Você me quer de volta? Mas para quê? Faz tanto tempo que terminamos... Será que ainda não superou? Solte-me, por favor...
- Não, meu amor, eu não posso soltá-lo. Se eu soltá-lo, vou perdê-lo novamente. Levei tantos anos para te encontrar, não deixaria que fugisse de mim, assim, tão facilmente.
A jovem vampiro continuava a cantarolar sutilmente.
- Lembra-se de como éramos, meu amor? De nossas aventuras? Lembra-se de Kate, aquela criança tão tenra, que matamos juntos, de tanto que a desejávamos?... Por que foi embora, por que fugiu de mim, Sean? Você me prometeu amor eterno...
- Eu cometi um erro, Marilyn, na época eu realmente achava que te amaria para sempre, mas não foi assim que aconteceu... As coisas mudam, eu mudei, e meu sentimento por você morreu...
- Tudo por causa daquela garota ingênua! – Ela interrompeu. Aquela menina que você conheceu naquele parque, que te virou a cabeça. Ela conseguiu te enganar com aqueles olhos falsos. Mas a mim ela não enganou. Tanto que eu pus um fim nela, e arranquei dela o olhar, o verde folha que tinha em suas vistas...
- Não foi aquela garota, Marilyn. Eu não me apaixonei por ela. Eu simplesmente enxerguei que eu não mais precisava de ti para continuar a minha jornada.
A vampiro lançou a mão no rosto de Sean, com sua força brutal.
- Mentira! Você sempre precisou de mim para tudo! E eu sempre vivi em função de ti. Larguei tudo que eu tinha de mais precioso, meu pai, meus irmãos, todos, para seguir contigo. Abri mão da minha vida mortal acreditando na sua promessa de amor eterno, e como age comigo? Abandona-me, sem mais nem menos, como se eu nunca tivesse representado nada para você.
- Se pareceu a você dessa forma, Marilyn, me perdoe. Eu não tive intenções de te repudiar daquela maneira. Apenas queria te dar a liberdade para que fizesse o que achasse melhor de sua vida.
- Chegou a me perguntar se eu queria essa liberdade? Sean, meu amor, o que eu fiz para que você me largasse daquela forma... Onde eu errei?
Marilyn parecia transtornada.
- Você não errou, querida, não fez nada. O sentimento apenas morreu. São coisas que acontecem...
- Mas não era para ter acontecido entre nós, meu amor. Não entre nós.
A moça começou a chorar. Sean observava o céu atentamente. Temia o nascer do sol, e as nuvens já estavam clareando. Tentou convencer Marilyn.
- Marilyn, não precisava ter feito o que fez, se me queria de volta, era só me procurar e conversar comigo.
- Como? Toda vez que eu chegava perto você fugia e eu tinha que começar minhas investigações novamente, para encontrá-lo. Mas dessa vez eu cheguei sem que você percebesse, e aproveitei a luz do dia, para usar meus subalternos e te prender, para que você não fugisse novamente...
- Eu fazia aquilo com a esperança de você me esquecer, querida. Não era mal intencionado. Por favor, solte-me. O sol já vai nascer e precisamos procurar abrigo...
Os primeiros raios já despontavam, mostrando sua ameaça àquelas criaturas, filhas da noite.
- Querida, vamos nos abrigar. Eu vou ficar com você... Prometo que não fugirei mais. Serei seu, para toda a eternidade, como eu havia prometido.
- O que eu fiz, ela repetia, o que eu fiz para ser abandonada?
- Esqueça isso, Marilyn, vamos passar uma borracha nisso tudo, e voltemos a levar nossa vida de casal, como levávamos antes, o que acha? Você tem toda razão. Não merecia o que eu fiz, eu fui o tolo aqui, ao permitir deixar você sofrer como você sofreu.
- Nós vamos, meu amor, ficar juntos por toda a eternidade, isso sou eu quem te prometo...
- Sim, querida, juntos, por toda a eternidade. Mas, para isso, eu preciso que você me solte. Precisamos procurar abrigo urgente. Logo o sol vai nos matar...
Marilyn olhou para o céu. Sim, ele estava chegando.
- Eu vou te soltar, sim, meu amor. Você será livre. Contanto que me prometa que ficaremos juntos até o fim dos tempos.
- Sim, sim, eu prometo, mas ande rápido, solte-me, pois já estou sentindo o incômodo em minha pele.
Marilyn soltou as correntes. No entanto, agarrou-o em seus braços. Sean sentia-se fraco, e não conseguia sequer se mover adequadamente.
- O que fez comigo, Marilyn?
- Sangue... dei à você sangue de alguém que estava sob o efeito do ópio, meu amor. Como eu disse, eu não ia deixá-lo ir tão facilmente... Eu não confio mais
A vampiro encostou seus lábios nos lábios do rapaz de aparência jovem e saudável, logo depois de cortar sua língua e deixar seu sangue escorrer entre os dentes. Do beijo, faíscas saíram, e eles se tornaram cinzas, cinzas que se misturaram com o vento, tornando-se um só...
--> Creditos da imagem: http://barbiedoll.deviantart.com/art/Beloved-34288809
26 de Outubro de 2007
24 de Outubro de 2007
Série Salem
23/10/07
O amargo da tragédia – Parte I
(Por Silvia Randazzo)
“Just look in these eyes
And see if they lie
All these words I speak
You cannot deny”
(Beseech, Devil’s Plaything)
Catarina entrou no carro, já nervosa, pois estava atrasada para o exame da faculdade. Tinha ido para cama muito tarde, estudando para a fatídica prova que decidiria seu futuro no programa de iniciação científica vigente, o que poderia fazê-la avançar nos estudos e ajudar em seu plano de carreira. Engatou a ré no carro, e já saia sem olhar o transito em seu bairro. Parou subitamente, ao ouvir o estridente barulho da buzina do carro que freou bruscamente. “Meu Deus, sete horas da manhã e alguém ainda tem coragem de fazer escândalo?”, pensou, sem sequer notar que, se não fosse a atenção do motorista que buzinara, ela teria batido o veículo, e perderia de uma vez por todas a chance de aumentar seu currículo.
Sempre fora distraída, no entanto, andava mais imersa em suas divagações de umas semanas para cá. Tudo porque sentia-se sozinha, estava solteira, enquanto suas amigas namoravam, cheias de pudor e felicidade, acometidas da paixão. Ver as amigas com olhos brilhando como orvalho atiçou-lhe o desejo de um amor. No entanto, era exigente. Não seria qualquer homem que a interessaria, e, por mais que tentasse, não conseguia sequer se imaginar beijando alguém que não lhe inebriasse os sentidos.
Catarina não era feia. Ao contrário, como toda jovem em seus vinte e um anos, era bela e cheia de energia. Tinha os cabelos escuros e ondulados caindo-lhe pelos ombros, os olhos amendoados de tom castanho-avelã, e a boca rósea preenchendo-lhe o rosto com fartura; o nariz era fino e aquilino, como o de uma russa, e as maçãs do rosto, vivas e longas, levemente avermelhadas. O corpo era bem contornado, músculos firmes e rijos, resultado de anos de esporte, adepta que era do tênis.
Chegou à faculdade a tempo de fazer o exame. E o fez com tanta dedicação, que parecia que, a qualquer momento, o sopro do conhecimento fosse fugir de sua mente. Fora a última a entregar a prova feita, logo que o sinal indicou o término das atividades.
Quando a manhã finalmente terminou, dirigiu-se ao campus de arquitetura, onde encontraria sua tão estimada amiga, Sofia.
- Somente você para achar que foi mal em alguma prova e ainda assim conseguir cerca de noventa porcento nela, Tina.
-Se eu não conseguir essa bolsa, Sof, eu juro que pulo da janela do meu quarto.
- Do segundo andar? – Sofia debochou da companheira, em tom irônico. O máximo que vai conseguir será quebrar as pernas...
- Que sejam quebradas. – Completou. Mas que eu pulo, eu pulo!
Catarina levou o garfo novamente à boca, degustando o almoço.
- A propóstio, Tina, você vai sair da caverna? Vai parar de hibernar? – Inquiriu Sofia, mudando de assunto.
- O que quer dizer, Sof?
- Oras, você não sai conosco desde que Marcelo começou a namorar...
- Ah! – Catarina arqueou as sobrancelhas. – Agora que até o Marcelo conseguiu uma namorada, se eu sair com vocês, além de segurar vela, vou ficar me sentindo a tia!
- Não seja tão boba, Tina. Todos nós sentimos sua falta. Estou te intimando – deu ênfase na palavra – a ir conosco, essa noite, ao Jack’s.
- E o que vai ter essa noite no Jack’s?
- Anos oitenta, respondeu Sofia.
******
Catarina usava um vestido florido curto, que deixava as pernas bem torneadas à mostra. Estava sentada numa mesa mais aos findos da casa dançante, bebendo bloody mary, e conversando com os amigos sobre trivialidades. Mesmo tendo conhecidos de anos, sentia-se deslocada, pois era a única desacompanhada da turma. Alguns rapazes a fitavam com interesse, mas ela torcia o nariz e os ignorava. “Acho que ando com o coração muito fechado, ou estou exigente demais. Nenhum rapaz me deixa curiosa.”, refletiu. Levou os canudos aos lábios, sorvendo o líquido vermelho e gelado, que a refrescava dentro daquele lugar tão quente.
Lucas olhava o ambiente a seu redor. As moças dançavam, sempre se exibindo, à procura de uma cama que pudesse aquecê-las no fim da noite. Muitas olhavam para ele, especificamente. O rapaz era descendente de europeus, alto, tendo seus cabelos lisos e compridos, alourados, e os olhos azul-piscina que enfeitavam o rosto fino. “Estou cansado dessa corja de garotas fáceis, que se entregam num piscar de olhos a qualquer homem que demonstre qualquer interesse.” Chamou o garçom e pediu mais uma bebida; acendeu um cigarro e jogou a fumaça do primeiro trago ao ar, suspirando. Já beirava os trinta anos e entediava-se facilmente. “Que falta eu sinto dos jogos de sedução com as garotas ingênuas!”- desabafou. “A sensualidade da timidez é algo que me intriga. Mas eu não tenho mais paciência para ficar nos jogos de conquista com as garotas. Quero apenas achar uma diferente e ter relações com ela. Se bem que para seduzir, tudo vale.” Fechou os olhos e começou a mantrar algo que, à primeira vista, parecia incoerente e desconexo. Logo um ser invisível respondeu, em sua mente concentrada. “Chamaste?” Com voz interior, Lucas respondeu: “Achaste o que eu desejo, Izabael?” “Sim, senhor. Encontrei aquilo com as características que me ordenaste.””Traga-a a mim!”- ele ordenou. “Ela está se dirigindo àquele lugar nesse exato momento.”- o demônio apontou.
Catarina levantou-se e dirigiu-se ao bar. Queria respirar um pouco, e dar mais espaço aos casais, para que eles não se sentissem na obrigação de dar atenção a ela. Sentou-se num dos bancos altos, e pediu um refrigerante. Lucas se aproximou, sentando-se ao lado dela, e, dirigindo-se a moça, indagou:
- Posso te pagar uma bebida?
Catarina olhou para ele, interrogativa, e recusou. Disse que não tinha o hábito de aceitar coisas de estranhos.
“Faça-a aceitar, Izabael.”- mandou Lucas, ao demônio.
- Pensando bem, eu acho que vou aceitar, sim, moço. Não estou fazendo nada, mesmo. Além disso, não estou dirigindo hoje...
- Que bom, esse foi o primeiro passo para que deixemos de ser estranhos! – Lucas exclamou. – O que vai querer?
- Não sei, a lista é grande. Mas não vou pedir nada caro, sorriu. Quem sabe, uma cerveja...
- Pode pedir o que quiser, não se acanhe com preço.
Catarina se sentiu ofendida.
- Olha, moço, eu não sei quais são suas intenções, mas eu não sou nenhuma aproveitadora, não. Nem sei por que aceitei seu convite. Não ache que por causa de um drink, eu vou sair por aí te tratando como se fossemos, já, íntimos, e...
Lucas calou-a, colocando seus dedos sobre sua boca. “Faça-a calar-se agora!” O demônio soprou na mente de Catarina que o melhor seria calar-se.
- E quem disse que essas são minhas intenções? – Inquiriu ele.- Se te ofendi, me perdoe, essa não era minha intenção. Apenas estou tentando estabelecer um diálogo com você. Vamos fazer assim, já que me ofereci para pagar-lhe uma bebida, mais correto seria se eu escolhesse, não é verdade?
Catarina corou-se, sentindo-se envergonhada. Será que havia feito mau julgamento daquele que a interpelava tão calmamente.
- Desculpe-me. Eu não deveria tê-lo julgado tão precipitadamente... Claro, pode escolher.
Lucas pediu ao garçom uma batida feita de licor de curaçau, menta, suco de limão, cranberry, e vodka. “Quando ela beber desse copo, Izabael, quero que ela se abra para mim.”
- Aqui está o seu drink. – Sorriu o rapaz. – Aproveitei e pedi, também, um para mim. Você ainda nem me disse seu nome.
A moça levou o copo à boca, deixando o líquido descer pela garganta, o álcool arranhando-a por dentro.
- Catarina, mas pode me chamar de Tina. Todos me chamam assim.
- Então, Tina, qual a sua idade? – Indagou Lucas, em tom de mistério.
- Bem, tenho vinte e um anos. Faço vinte e dois no próximo mês. E você, qual sua idade?
- Vinte e oito. E faz o que da vida?
- No momento, estudo. Faço psicologia... Estou no quinto período. Na verdade, entrei fazendo biologia, mas a psicologia me chamou mais a atenção e resolvi mudar de curso no meio do caminho. Não me arrependo nem um pouco, para ser sincera. Fiz a escolha certa. Agora estou num projeto de iniciação científica que, se Deus quiser, vou conseguir a bendita bolsa de estudos, e trabalhar numa pesquisa. Mais pra frente pretendo conseguir um estágio. Lógico, o estágio é o que ajuda a... – A jovem calou-se. Fez uma careta de quem não estava entendo as próprias atitudes. – Por que estou te contando tudo isso? – Pensou alto. – Nós nem nos conhecemos! Não deveria estar me abrindo assim contigo, dessa maneira. Nem sei quem você é!
Lucas sorriu. Afinal, o demônio havia cumprido com sua palavra, e havia criado uma ligação entre ambos. Agora, bastava dar as ordens diretamente a Catarina, usando sua mente, que ela obedeceria. Acendeu mais um cigarro, observando-a atentamente. Izabael havia acertado na escolha. Encontrou alguém tímida, que tendia a ser fechada com desconhecidos, ingênua, e, acima de tudo, bela. Exalava um desinteresse natural por relacionamentos, mostrando que tinha outras prioridades, acima do amor. Para a moça, o amor poderia esperar. E isso excitava o mago, pois ela não era alguém que estava procurando um conforto masculino, e sim um jeito de fazer sua vida. No entanto, mesmo sabendo que ela era difícil, possuí-la seria fácil; Lucas havia usado de métodos desonestos, aproveitara-se de seu conhecimento em magia para conseguir sexo da mulher que desejava, e os demônios são uma grande ajuda para a realização imediata dos desejos do ego. “Os fins sempre justificam os meios...”- concluiu, triunfante. “Dance comigo!”- mandou, calado. Catarina olhou para ele, como se estivesse esperando alguma coisa.
- Me daria o prazer da dança? – Lucas convidou.
- Claro. Dançar um pouco seria ótimo!
Os dois foram para a pista. A música agitada mexia com os sentidos dos clientes do Jack’s, que se movimentavam ininterruptamente, muitas vezes, de maneira obscena. Catarina começou a balançar-se, sentindo as luzes que piscavam freneticamente incomodarem-lhe a vista. Ela não estava se sentindo bem. Uma tontura estranha havia se instalado em seu ser. Algo que ela nunca havia experimentado, nem saberia explicar o que era. “Será que estou bêbada?”- perguntou a si mesma. “Deveria sentar-me um pouco, mas dançar está tão gostoso.” Em verdade, ela não conseguia evitar. Sabia que precisava se apoiar em algo, molhar o rosto e, quem sabe, ir para casa. No entanto, algo mais forte que ela a compelia a continuar a mover os pés e a jogar os braços para o ar. Notava-se como uma marionete, sem vontade própria, que seguia ordens vindas do divino. Era uma sensação incômoda, no entanto, inevitável. Lucas enlaçou-a pela cintura. E sussurrou em seu ouvido:
- Vamos para minha casa!
Catarina nada disse. Apenas deixou-se levar pelo homem, sem resistência. Ele começou a guiá-la, saindo dos domínios do bar. Ela andava vagarosamente, tonteando, cambaleando de um lado para o outro, e as vistas lhe faltando a todo instante. Chegaram ao estacionamento, mal iluminado pelos postes fracos. A lua brilhava, intensa.
- O meu carro é logo ali, princesa. – Lucas já cantava vitória. Arriscou. Virou-a para si, colocando seus braços em volta da moça, e beijou-a. Catarina, após alguns segundos, pousou as mãos sobre os peitos do rapaz, afastando-o. Confusa, começou a gesticular e a falar:
- Um momento... O que eu estou fazendo? Olha, eu sinto muito, mas não é da minha índole sair com caras que mal conheço, assim, do nada. Eu nem sei quem você é... Eu vou voltar para meus amigos...
Lucas encostou seus lábios nos dela de novo. Em vão, Catarina tentou lutar, mas assim que começou a tentar afastá-lo novamente, uma força a coagiu a aceitá-lo, e ela soltou seu corpo, permitindo ao mago que a beijasse. O homem começou a passear com as mãos no corpo dela, e desceu os lábios para seu pescoço.
- Isso não está certo... – Ela conseguiu proferir, antes de calar-se novamente.
- Shhhh.... – Lucas determinou. – Apenas se permita, princesa...
Catarina suspirou laconicamente, e uma lágrima rolou por seu rosto frio, gelado como o sereno. Ela não queria, sabia que não queria. Entretanto, não conseguia dizer não ao jovem homem. Enquanto isso, as mãos do mago alcançavam seus seios.
De súbito, Lucas se afastou, sentindo mãos fortes entrelaçarem seu colarinho. Deu passos para trás e se viu frente a frente a um ser misterioso, que aparecera sem emitir qualquer som. Seus olhos eram assustadores, de um tom vivo e amedrontador. A respiração do jovem começou a falhar, e seus ouvidos captaram a seguinte frase: “Saia daqui se quiser continuar a viver.” Sem controle de seus sentidos, e tremendo como um filhote jogado às hienas, Lucas soltou Catarina, que desfaleceu, abriu a porta do carro, deu a partida e saiu cantando o pneu, enquanto em sua mente, um pensamento surgia: “Desgraçado!”.
Antes que a moça chegasse ao chão, mãos seguras a envolveram e a ergueram, e ela sumiu na noite cálida de verão.
23 de Outubro de 2007
Daquele lado
(Por Silvia Randazzo, 23/10/07)
A divina timidez de outrora.
O espectro sensual do erotismo,
E o pulsar do calor acanhado.
Daquele lado, a inocência,
O dia de acordar com os raios,
Que tocam a pele que queima com o calor.
- Ou seria o frio que arranhava a pele? –
Daquele lado, o dia,
A pureza de tempos ambíguos,
Os sonhos reprimidos das virgens.
Os desejos acalentados pelo ardor,
Os almejos ninados pela esperança,
Esperança imortal, mas infrutífera,
Esperança que traz o mal, concedendo glória.
Daquele lado, o símio grunhia alegre,
Sempre a cantarolar parábolas incertas,
Arriscando passos artificiais de eunuco.
Daquele lado, as flores não morriam,
Sequer floresciam, esperando a primavera.
As folhas não caiam, sequer brotavam,
Esperando a chuva para nutrir as raízes.
Daquele lado, a lua se mostrava em pedaços,
Nunca revelando sua rechonchuda face,
Sempre se escondendo, incrédula.
Daquele lado, nada nascia, nada morria,
Todos esperavam o ciclo da vida,
Todos esperavam, calados.
22 de Outubro de 2007
Prometendo-me teu suave calor.
Fazendo minhas faces corar.
A dor de tua ardência ferina.
Contive de uma Dama que sonha
Vós sois o amante inesperado,
Que de mim tomastes o coração,
Cantando o sim ou não,
Alegrando minh’alma em vão.
Vós sois o crepúsculo divino,
Que de mim bebestes o fôlego,
Dançando como um galego,
Andando, belo, altivo.
Sois o andarilho, taciturno,
Imberbe como a lua,
Silencioso como, de madrugada, a rua,
Sois homem noturno,
Como a estrela afaga o céu,
Vossos lábios são sabor de fel.
